terça-feira, 5 de maio de 2009

Trem da vida

NO FIM DO TÚNEL

Violência. Desrespeito. Agressão.
No Rio de Janeiro, passageiros de trem são vítimas da barbárie.
Seguranças dão pontapés. Murros. Chicotadas.
O clima estava tenso na estação. Muita gente disposta ao quebra-quebra.
Rojões e armas leves estavam nas mãos de alguns usuários do serviço.
--Bateu, levou.
Quem dizia isso era o Salviano.
Rapaz do morro. Consciente de seus direitos e de sua dignidade.
O segurança Brandão tinha pouca paciência com esse tipo de conversa.
--Couro no lombo desses baderneiros. E é pra já.
O enfrentamento ia acontecer. Mas naquele momento fez-se um estranho silêncio na estação. Um homem alto apareceu lentamente. No fim do túnel.
Roupa branca. Barba espessa. No pescoço, o nó de uma grossa corda.
--Tiradentes? Será possível?
--Mais vidas eu tivesse... mais vidas eu daria....
Brandão largou o chicotinho. Salviano cantou o hino nacional.
E soltou o rojão em homenagem aos mártires do povo.
Um trem de subúrbio é como corda de enforcado. O aperto não traz bons resultados.

Gripe suína

VINGANÇA SEM PALAVRAS

Medo. Pânico. Precaução.
A gripe suína tira o sono dos brasileiros.
Ademar curtia uma feijoada.
--E aí? Será que eu posso comer?
A mulher dele se chamava Edite e fez cara de desprezo.
--Você é burro mesmo, hein.
Já está esclarecido: a gripe se transmite pela tosse. Pela saliva. Pelo espirro.
Mas não pela lingüiça. Pela carne-seca. Pelo torresmo.
Sabadão. Ademar saiu com os amigos.
A feijoada foi até as oito da noite.
O obeso pai de família desabou na cama da suíte.
A mulher foi se deitar no horário de sempre.
A cerveja. O feijão. A caipirinha.
Os roncos de Ademar tinham alcance quilométrico.
--Acorda. Seu porco. Seu suíno.
Da boca aberta do marido, micróbios saíram numa vingança sem palavras.
Edite foi internada com gripe forte. Estado de observação.
Vacinas previnem a gripe. Mas não há cura para a falta de amor.

Outras culturas


Abuso. Irregularidade. Sem-vergonhice.
A farra das passagens aéreas corre solta no Congresso.
O famoso deputado Propício de Albuquerque estava preocupado.
--Essa mamata vai acabar.
Protestos. Denúncias. Notícias.
--Temos de aproveitar antes que seja tarde.
Reuniu a parentada em sua mansão no Lago Norte.
--Façam seus pedidos. Para onde vocês querem viajar?
Num bloquinho, ele anotava tudo.
--Cinco passagens para Miami... Paris, onze...
O sobrinho adolescente de Propício era criador de caso.
--Calma aí. A vovó já foi cinco vezes para Miami. E eu não fui nenhuma.
--Cala a boca, moleque.
--Injustiça, pô. Na minha idade, preciso conhecer outras culturas.
Propício fez anotações em silêncio. Dias depois, tudo estava resolvido.
O sobrinho ganhou passagem de primeira classe. Para o México.
Lugar de muita cultura. E onde uma epidemia de gripe elimina os mais fracos.
Mas quem vive no mar de lama não teme enfermidades suínas.

A Rejane, o Carlos e o Ronaldo

Enfim, Lula vem ao Maranhão!

Finalmente autorizado, Lula desembarca em solo maranhense.
Como as coisas mudam, não?
É impressão minha ou a ausência da companheirada é proposital?
Ou será que os petistas maranhenses foram impedidos também de se aproximar do "companheiro"?

sábado, 25 de abril de 2009

O Amor acaba?


Quando me pediram a crônica, pensei logo numa que escrevi há uns anos e que repercutiu, O AMOR NÃO ACABA, uma resposta otimista e apaixonada [não muito convicta, confesso] à famosa crônica O AMOR ACABA, de Paulo Mendes Campos, que foi citada enquanto eu levava um surpreendente, desesperador, aviltante, torpe e indigno pé-na-bunda. O paradoxo dos paradoxos aconteceria se ELA aparecesse e comprasse o quadro!!!
Diz o original de Mendes Campos: "O amor acaba. Numa esquina, por exemplo, num domingo de lua nova, depois de teatro e silêncio; acaba em cafés engordurados, diferentes dos parques de ouro onde começou a pulsar; de repente, ao meio do cigarro que ele atira de raiva contra um automóvel ou que ela esmaga no cinzeiro repleto, polvilhando de cinzas o escarlate das unhas; na acidez da aurora tropical, depois duma noite votada à alegria póstuma, que não veio; e acaba o amor no desenlace das mãos no cinema, como tentáculos saciados, e elas se movimentam no escuro como dois polvos de solidão; como se as mãos soubessem antes que o amor tinha acabado; na insônia dos braços luminosos do relógio; e acaba o amor nas sorveterias diante do colorido iceberg, entre frisos de alumínio e espelhos monótonos..."
Cá está minha versão resumida, para caber numa lauda:


O amor não acaba
O amor acaba? O cara disse. Numa esquina, num domingo, depois do teatro e do silêncio, na insônia, nas sorveterias, como se lhe faltasse energia. Ele não volta? Não deixa rastro ou renasce? Na esquina em que se beijaram uma vez, lá está, na sombra apagada pela luz, na poeira suspensa, na revolta da memória inconformada. Na solidão, lá vem ele, volta, com lamento, um quase desespero, e penso nos planos perdidos, que vida sem sentido... Na insônia, o amor cai como uma tonelada de lápide, e se eu tivesse feito diferente, e se eu tivesse sido paciente, e se eu tivesse insistido, suportado, indicado, transformado, reagido, escutado, abraçado? Na sorveteria, ele volta, o amor, em lembranças. Porque aquele sabor era o preferido dela, aquela cobertura era a preferida dela, aquela sorveteria era a preferida dela, aquela esquina, aquele bairro, aquele clima, aquela lua, aquele mês, aquela temperatura, aquela raça de cachorro, aquele programa de fim de tarde e aquele horário sem planos... No elevador, quantas saudades daqueles segundos em silêncio, presos na caixa blindada, vigiados por câmeras camufladas, loucos para se agarrarem, rirem, apertarem todos os botões, tirarem a roupa, escreverem ao lado do Atlasado: “Eu te amo”. Saudades é amor. Não se tem saudades do que não se amou. O amor não acaba, porque tenho saudades, me lembro dela, me preocupo com ela, torço por ela, e se sonho com ela, meu dia está feito. O amor não pode acabar, porque sem ela ou sem a esperança de revê-la, até a chance de tê-la de volta, não vejo a paz. Ela é uma trégua na minha guerra pessoal contra a minha paixão por ela. Amá-la me faz bem. Mesmo que ela não me ame, amo amá-la. Continuei amando desde o dia em que terminou. Passei meses amando como se não tivesse acabado. Ficaria anos amando mesmo se não tivesse voltado. O amor não acaba, muda. O amor não será, é. O amor está. Foi. Nas tantas músicas que ouvimos, que dançamos colados, trilhas das noites frias em que você sentava em mim nua, enquanto os meus braços imobilizavam os seus. Amor. O não-amor é o vazio. O antiamor também é amor. Eu te amava quando você respirava no meu ouvido. Lembra do meu dedo dentro de você? Amo-te, amo-te, amo-te. Instante secreto, sua boca incha, seus olhos apertam, suas unhas me arranham e você diz: Eu te amo! O amor acabou quando você se foi? Você sentiu saudades das minhas paredes, das cores das minhas camisas, da umidade da minha boca, do cheirinho do meu travesseiro, da minha torrada com mel, das noites pelados assistindo à tevê, dos vinhos entornados no lençol, do café da manhã com jornal, você sentiu falta de atravessar a avenida comigo de mãos dadas, de correr da chuva, de eu te indicar um livro, do cinema gelado em que vimos o filme sem fim, torcendo para acabar logo e ficarmos a sós, você sentiu falta da minha risada, inconveniência, de eu ser seu amante, noivo, amigo e marido, dos meus olhos te espiando, dos meus dentes mordendo e mastigando, ficou tanto tempo longe e pensou em nós especialmente bêbada ou louca, queria me ligar, me escrever, meu cheiro aparecia de repente, meu vulto estava sempre ali, acaba? Diz que acaba. Como acaba? Não acaba. Diz, não acaba. Repete. Falei? Não acaba. Pode virar amor não-correspondido. Pode ser amor com ódio, paixão com amor. Tem o amor e o nada. Ah, mais uma coisa. Antes que eu me esqueça. O amor não acaba. Vira. Se acabar, não era amor.
Será?

sábado, 18 de abril de 2009

Corrado Govoni (1884-1965)

Portinari, "Flautista", óleo de 1934

Eis o que resta
de toda a magia da quermesse:
esta cornetinha
de lata azul e verde
que uma menina sopra,
caminhando, descalça, pelo campo.
Mas naquela nota esforçada,
estão dentro os palhaços brancos e vermelhos,
a banda de ouro rumoroso,
o carrossel com seus cavalos, o realejo, as muitas luzes.
Assim no gotejar da calha
está todo o espanto da tempestade,
a beleza dos relâmpagos e do arco-íris,
e no humilde pavio de um pirilampo
que numa folha de arbusto se incinera
está toda a maravilha da primavera.